Homenagem ao Dr. António Pina

O Dr. António José Veiguinha Correia Pina, pertencia à geração de cirurgiões que tendo iniciado a sua formação nos Hospitais Civis de Lisboa, levaram e conseguiram transmitir os seus valores para os novos hospitais onde foram colocados. Os seus mestres foram cirurgiões como o Dr. Gomes Rosa, o Dr. Henrique Botelho e o Dr. Humberto Messias, tendo absorvido deles valores como a dedicação e o respeito profundo pelos doentes, a execução correcta e adequada da técnica cirúrgica a cada situação e a eterna preocupação em se manter informado e actualizado. O Dr. António Pina soube ao longo da sua carreira, interrompida de forma inesperada e precoce, fazer jus destes valores e transmiti-los de forma magistral, através do seu exemplo, dedicação e empenhamento. Atingiu o lugar mais alto das Carreiras Médicas, o de Chefe de Serviço, por mérito próprio, tendo ao longo do tempo integrado nas suas funções, o trabalho em várias comissões hospitalares de onde destaco a Comissão de Ética e a Direcção do Internato Médico. Foi o grande impulsionador da transplantação renal de dador vivo no Hospital de Santa Cruz, tendo para isso feito formação específica no Centro de Transplantação do Hospital Universitário de Minnesota, nos Estados Unidos. Este programa, que permitiu realizar até ao momento mais de 100 transplantes de dador vivo (parental ou relacionado), com resultados sobreponíveis aos internacionais, coloca-o num lugar à parte, a par de nomes como o Dr. Rodrigues Pena, Prof. Dr. Linhares Furtado, Dr. João Rebelo de Andrade e Dr. Manuel Teixeira, entre outros.

Mas o António Pina foi muito mais do que acima ficou expresso. Mais que um colega, foi um companheiro, um mestre e um amigo para as “gerações” seguintes de cirurgiões que ajudou a formar. Era um companheiro porque vivia (quase) no hospital. Era frequente aparecer quando já mais ninguém andava pelo serviço, vindo da consulta, do bloco operatório ou de uma qualquer reunião, para nos dar mais uma dica, chamar a atenção para um doente mais complicado, ou tão somente para nos pagar um café e dar um pouco de apoio moral. Um mestre porque mesmo quando não era o tutor ou o chefe, tinha sempre uma palavra e um gesto para ensinar, servindo a todos de referência, como ponto de ancoragem e saber, recurso nas aflições e nas nossas dúvidas. Um amigo porque o António Pina era uma daquelas pessoas que estão sempre disponíveis para nos confortar, quando algo corre mal, para nos dar uma palavra de ânimo, dizer uma piada a propósito e desanuviar o ambiente. Tinha um jeito especial para captar os "dizeres das gentes do mundo", ele que foi um viajante insaciável, e nos fazer rir com isso. Por onde andava deixava sempre no ar o "perfume" da boa disposição e do ânimo para continuar. Mas o António Pina foi ainda mais do que isto, porque mesmo sendo um pai tardio, soube acalentar uma prole de cinco filhos e vibrar com cada momento dessa sua faceta de pater família, das idas ao supermercado às voltas do inglês e da equitação.

Por tudo isto, posso afirmar que, para o António Pina, a Medicina e a Família foram a sua vida, fazendo de ambas uma Ciência e uma Arte que poucos conseguem conciliar.

Paulo Simões


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