Homenagem ao Dr. Horácio Flores

 

Há muitos anos, quando iniciei o estágio de cirurgia no final do meu curso, tive o prazer de conhecer o Dr. Horácio Flores, assistente no serviço do Prof. Celestino da Costa. Era um médico cativante na sua simpatia, sabedoria e … ironia no atendimento dos mais novos. Assistentes assim convidam a ser médicos com respeito e sem temor a quem nos ensina. Passou a ser para mim uma referência como Homem, como Cirurgião e como Amigo.

 

No decorrer dos tempos vim a saber que este jovem médico tinha amadurecido os seus conhecimentos e práticas e, quando se esperava dele uma Carreira Universitária, de certeza ao seu alcance, optou por exercer a sua prática e o seu saber num Hospital dito Distrital ou Periférico ou seja Beja.

 

Assim se iniciou a colonização da periferia dos grandes centros por gente de cultura e saber atraindo outros para esta grande aventura e ousadia de estender a formação pós graduada a todos os Hospitais gerais e assim foi o início das Carreiras Médicas em todos os Hospitais. Hoje trata-se ou deve-se tratar tão bem um doente num Hospital periférico como nos grandes centros.

 

Quando em 1968 o Ministério da Saúde abre vagas noutros Hospitais o Dr. Flores já lá estava e estava bem e a ensinar. Tornou-se aliciante fazer a prática médica nestes Hospitais e o processo era irreversível. As Carreiras Médicas eram já uma bela realidade e a geografia do saber já estava enraizada nas periferias.

 

O Dr. Flores formou médicos de alta qualidade pela sua grande exigência nos bons métodos e boas práticas não descurando os novos conhecimentos e o crescimento vertiginoso de novas tecnologias criando novas exigências e responsabilidade na qualidade e gestão do risco.

 

Foi uma referência na cirurgia portuguesa da época já que praticava em Beja toda a cirurgia que se praticava nos grandes centros deste Portugal. Era um Homem de cultura acompanhando as novidades e as exigências técnicas com crítica fina que deixava transparecer nos seus discursos que espero se possam editar para novas leituras.

 

Quando convidado, por se lhe reconhecer mérito, alinhou sempre na formação de Sociedades Científicas como a Sociedade Médica dos Hospitais da Zona Sul e Sociedade Portuguesa de Cirurgia tendo feito parte das primeiras Direcções eleitas. Manteve sempre uma postura discreta e quando lhe permitiam que aparecesse impressionava com a sua postura perante a vida e perante a profissão.

 

Deixa saudades e sendo “a saudade o que resta dum grande amor”, penso que o Dr. Flores leva com Ele saudades do Hospital que tão bem serviu e tanto amou.

 

Como seu amigo só tardiamente soube da sua morte, morreu discreto assim como sempre viveu.

 

Setúbal, 11 Novembro 2009

Luís Machado Luciano

 


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